Desregulação emocional é um conceito amplamente discutido na saúde mental, mas raramente definido com precisão. Poucas vezes, quando o termo aparece, vem acompanhado de um modelo que explique como esse padrão se desenvolve. Este artigo apresenta o conceito de regulação e desregulação emocional como base para entender o modelo biossocial da DBT (Linehan, 2015).
O modelo biossocial
Não é a única proposta que explica esses conceitos, mas o modelo biossocial é uma das mais sólidas: reúne estudos genéticos, neurobiológicos, sobre padrões familiares, características psicológicas infantis e experiências traumáticas ao longo do desenvolvimento (Crowel, Beauchine & Lenzenweger, 2008). Além de bem fundamentado, é um modelo simples de explicar e entender, o que garante boa aplicabilidade clínica: ajuda o paciente a entender o que acontece com ele e como gerenciar melhor suas emoções (Linehan, 2015).
Os quatro componentes da regulação emocional
- Inibir comportamentos impulsivos ou inadequados diante de emoções intensas, agradáveis ou desagradáveis (Linehan, 2015). Imagine tropeçar e cair na frente de várias pessoas: sentir vergonha e vontade de sair correndo é normal, mas levantar e seguir para a prova, em vez de fugir, mostra essa capacidade em ação.
- Organizar-se para agir a favor de um objetivo, em vez de agir apenas pelo impulso da emoção (Linehan, 2015). No exemplo anterior, é a decisão de ir para a prova em vez de fugir.
- Reduzir a ativação fisiológica quando uma emoção intensa aparece (Linehan, 2015). Pense na primeira vez que você foi conversar com alguém por quem estava apaixonado: o coração acelerado, a pausa para respirar e tomar coragem antes de se aproximar.
- Deslocar o foco da atenção durante uma resposta emocional intensa (Linehan, 2015). Numa reunião de amigos, ouvir um comentário xenofóbico pode gerar desconforto forte; desviar a atenção do assunto para se acalmar, em vez de reagir de forma agressiva, é esse componente em ação.
O que é desregulação emocional
Desregulação emocional é a falha em um ou mais desses quatro componentes: um comportamento guiado pela emoção do momento, mesmo quando isso compromete objetivos de longo prazo. Nem toda ação impulsionada pela emoção é desregulação, seguir o impulso às vezes é coerente com objetivos de longo prazo, ou representa uma troca consciente por algo que reconfigura esses objetivos. O que caracteriza a desregulação é quando a ação guiada pela emoção intensifica o problema ou cria novos problemas, sem que a pessoa perceba esse efeito (Linehan, 2015).
Desregular a emoção, de vez em quando, faz parte da vida. O que importa é reconhecer quando isso vira um padrão.
Quando a desregulação se torna um padrão
Existem diferentes níveis de desregulação emocional. Um padrão mais global envolve respostas emocionais intensas e instáveis, associadas a comportamentos igualmente intensos e às vezes autodestrutivos, incluindo condutas suicidas e comportamentos autolesivos sem intenção suicida (Koerner, 2012). Esse padrão costuma vir acompanhado de dificuldades importantes nas relações interpessoais e de um senso de identidade menos estável, já que a resposta da pessoa muda muito conforme a situação e a emoção do momento.
Entender a regulação e a desregulação emocional, e o modelo biossocial que explica como esse padrão se desenvolve, é a base para um tratamento adequado. É esse entendimento que orienta boa parte do trabalho clínico dentro da DBT.
